Santa Júlia, 26 de Dezembro de 1985;
O tempo abafa. Como abafa o tempo. Ainda há no ar o cheiro impregnado de natal. O presépio na praça derrete ao sol. O rímel de Maria pinga, como pinga S. José o suor do seu rosto. Ali não era necessário um estábulo, um boi e uma vaca para aquecer o pobre menino que afinal foi furtado na noite anterior.
Mariano, o polícia, passa pelo coreto. Tira notas. A virgem chora, S. José agonia e o menino desapareceu. Nem um vestígio de vandalismo. Foi o padre Rubens que telefonou de manhã, no seu sufoco de permanência quaresmal. Pobre Nilda, adormeceu a ouvir as milongas e esqueceu-se de ir tirar o menino do coreto. Será interrogada mais tarde. De resto o normal para um lugarejo daqueles. A poeira das ruas, um som constante de gambiarras musicais a agoniar uma eventual avaria. Merda para isto. Escreve e risca. Ainda arrota a carne de porco do dia anterior. Genoveva já não serve para muito mais mas ainda cozinha bem e mata galinhas impiedosamente.
Lá vem Rosário. Linda e maravilhosa como sempre. Que vestido tão curto e que cabelos tão volumosos. Sente-se daqui o seu cheiro a carne de mulher, a perfume e ervas aromáticas. Volta a riscar. Traz pela mão a arrastada D. Luz. Faz um calor tremendo e a velha usa sempre o mesmo xaile pesado. Vão na direcção do coreto. A mulher tem uma devoção tremenda pelo menino Jesus e é sua proprietária. Melhor dizendo, era. Doou-o há uns anos ao padre Rubens, para que as pessoas de Santa Júlia pudessem contemplar uma figura tão bonita e apaziguadora como a do menino Jesus. O seu corpinho roliço, a fralda a fugir e a tinta da pilinha já lascada pelo tempo.
- Deus! Que fizeram ao meu menino? Senhor Mariano, faça alguma coisa! Soluça com o seu lencinho amarelado de ranho. É o que digo, nunca deviam ter autorizado o presépio no coreto. Mas o senhor padre diz que até os não católicos devem ver o presépio e que dentro de uma igreja só entram devotos. Infiéis! Foram aqueles!
Aponta o seu dedo torcido de artroses para o salão do reino das testemunhas de jeová que fica no outro lado da praça, numa ruela estreita.
- Vamos D. Luz, lá por não adorarem figuras não quer dizer que tenham sido eles. Rosário passa-lhe a mão delicada pelos ombros. As unhas pintadas de vermelho, os cabelos ruivos encaracolados. Meu Deus, que pecado não ser puta...a desperdiçar o seu tempo com velhas bolorentas...Mariano faz um esforço para se concentrar. O que faz uma ruiva numa terra de canelas? De onde vieste, meu anjo? Como caíste aqui fora do presépio? E o rabo ali delineado naquele vestidinho...
- Pare de olhar para a moça, sr. Polícia e faça alguma coisa. A velha pode ser meio cega e até algo surda mas não deixa escapar um pormenor safado. Um pormaior diria.
- Faremos o possível D. Luz, esteja tranquila. Quando posso ir lá a casa interrogá-la?
D. Luz olha-o com os seus olhos franzidos. Mariano sente um arrepio. Rosário acalma a situação. Não é isso menina Luz, o senhor agente quer saber mais informações sobre o menino. Alguma descrição, quando o adquiriu. A senhora não vai ser interrogada como bandida. Vai ser inquirida.
E que esperta que é a cenourinha? Leva a escola toda, já vi. Deve ser daquelas que tem lábia. E todas as velhotas lhe morrem aos pés...trabalho precário para uma menina tão esperta...
Agora vamos, menina Luz. Vamos que daqui a pouco é meio dia e não se pode debaixo deste sol. Vamos ali à Igreja, de certo o senhor padre terá uma explicação.
Afastam-se bambaleando os seus traseiros.
5 de Janeiro de 1986
Luís Fernando procura uma maneira de abrir ainda mais a janela do seu gabinete. O tempo abafa mas se abre demasiado a janela, entra a poeira das ruas. Nunca conheceu um lugar tão poeirento como aquele. Matias, o escrivão, percorre as teclas da máquina de escrever. Escreve de maneira ágil, não obstante o calor.
- Tudo a postos para o interrogatório? Sim, excelência, tudo a postos. Temos a arguida? Sim, já está na sala acompanhada do seu defensor. Falta-lhe muito para terminar? Não, senhor doutor, apenas a capa. Como vai ficar? Estou a pensar nos cavalos apreendidos. Soltem os cavalos? Muito bem Senhor Juiz. Vamos! Depressa..não estamos a escrever um romance.
26 de Dezembro de 1985
A noite cai sobre a cidade. Apesar disso a temperatura não desce. O céu está limpo e sente-se um aroma a carne de porco com ervas. Mariano tira as botas. Os pés estão assados. Genoveva limpa as mãos no avental e recolhe-as.
- Finalmente em casa...este dia nunca mais terminava. Como ficou aquilo do menino jesus? Que raça de bandido faria uma coisa destas? Onde já se viu? E a pobre menina Luz, como não deve estar? Desolada, imagino. Desolada.
Que importa uma idosa raquítica quando se esteve na presença de Rosário? Aquelas carnes firmes e o seu cheiro de mulher. Se ao menos Genoveva ainda fosse assim. Mas não, está gorda e flácida e cheira a banha. Passa o dia na cozinha. Que sorte a minha. Se tivesse ficado na capital...a esta hora teria mulheres bonitas à minha volta...
- E o jantar, já está pronto? Sim homem! Alguma vez te falhei eu com o jantar? Não...tinha de admitir, era uma boa cozinheira...Fiz feijoada com o porco de ontem. Feijoada? Sim. E onde compraste esse porco? Era bom e tenro, macio, como. As carnes de Rosário. Como o quê homem? Anda, já estás a acusar fome. Vá, senta-te que já te sirvo. Só não há pão que já sabes como é o Pablo. Diz que ainda hoje é dia santo e que não amassa pão em dias santos. Porquê? Cambada de preguiçosos! Oh, diz que o diabo esconde-se no pão amassado em dias santos, que queres que te diga?
Mariano e Genoveva jantam tranquilamente. A divisão está silenciosa. A televisão avariou antes do natal e o mecânico foi de férias para longe.
Socorro! Alguém me ajude!
Que gritos são estes homem? Ouves isto? Socorro! Alguém me ajude!
Assomam-se à janela. Ao longe, na rua, Rosário grita caindo no chão. Rosário...até aflita fica bonita!
Que se passa Rosário? Genoveva grita da janela. A minha pobre velhinha, grita. Pobre velhinha. É a terceira que me morre este ano. Alguém me acuda! Porquê meu Deus?
5 de janeiro de 1986
O seu nome completo.
Rosário Bernardina Garza.
Nome de pai?
Não tenho.
Nome de mãe?
Paloma Garza.
Garza é de sua mãe?
É sim. Meu pai era um maltrapilho irlandês que andava por aí. Nem sabemos o nome, nem o paradeiro.
Data de nascimento.
28 de fevereiro de 1957.
27 de Dezembro de 1985
Avé-Maria, cheia de graça, o senhor é convosco...Um burburinho de orações soluça em volta do corpo de menina Luz. Pobre velhinha! Ouve-se escapar ao fundo. Rosário chora inconsolável. Triste sorte ruivinha, sempre chora a morte de uma velhinha. Ossos do seu ofício. Já sabe como é. Não entristeça, cedo aparecerá outra para cuidar.
4 de janeiro de 1986
E todas estão mortas senhor comissário! Agente, por favor, Agente Mariano. E que tem estarem todas mortas? Eram velhas, problemáticas. Sim, senhor agente, não me interprete mal. Eram todas pobres coitadas mas...Onde quer chegar?
Oriana ajeita os seus cabelos. Senhor comissário, perdoe-me, meu marido disse-me que devia esperar até ao fim das festividades. Amanhã já passam os reis mas eu não podia. Pega num lenço e soluça. Eu tinha de apresentar esta denúncia porque era evidente. Minha mãe, apesar de avançada na idade era uma senhora muito saudável e cumpridora de ordens médicas. Além disso nunca sofreu de asma na sua vida. Como iria morrer com um ataque de asma? Como senhor comissário?
5 de janeiro de 1986
Conhecia a D. Luz?
Conhecia sim senhor Juíz.
E de onde a conhecia?
Eu era sua cuidadora. Fui por todo o mês de Dezembro. Até coitadinha ter asfixiado por causa do roubo do menino jesus.
E antes disso? Era cuidadora de quem?
Da Rosita que morreu de diabetes. Eu disse-lhe, menina Rosita, não coma esses bolos cheios de açúcar. Guarde para o natal que há-de vir.
Quando faleceu?
Dia 26 de Outubro do ano passado.
Sabe porque está aqui?
Não senhor doutor. Quero dizer, faço ideia. Pelo menos pelo que a multidão grita lá fora. Parecem cavalos desenfreados.
Muito bem, vou passar a ler-lhe os factos que temos até ao momento. Oiça-me atentamente.
(Fecho de capítulo)
Tema: Yo no sé que me han hecho tus ojos.
Canta: Francisco Canaro.
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